
Desde muito pequenas as crianças gostam de imitar tudo que os adultos fazem. Brincam de “casinha”, de médico, de ir ao escritório e tantas outras situações imaginadas. Elas fazem isso pois desejam vivenciar e compreender melhor o mundo que as cerca. Colocar-se no lugar de quem cuida de um bebê as faz compreender melhor o papel de cada um em sua família. Experimentam tudo isso de diferentes pontos de vista, pois ora são filhos, ora pais; ora médicos, ora pacientes. Não raro, numa brincadeira, um finge choramingar e outro acaricia e diz:
“- Não chora, filho. Papai vai trabalhar para ganhar dinheiro mas logo volta!”.
Este é o modo como se aproximam e procuram confirmar suas hipóteses deste mundo que os cerca.
Na fase infantil, aproximam-se do mundo de forma lúdica, mas sempre procurando um sentido real para tudo.
Com a língua escrita, não é diferente. Afinal, desde bebês esta signos escritos os cercam e ajudam a organizar seu mundo. Desde que estão no colo, ouvem histórias, presenciam seus pais lendo jornal, livros, revistas, escrevendo em agendas, computador e anotando recados.
Desde muito pequenos gostam de imitar estes gestos: segurar canetas, lápis, mexer no computador. No começo, estas ações ainda não têm funcionalidade – estão brincando - e registram esta escrita usando sempre os mesmos “rabiscos”.
Aos poucos, “começa a diferenciação: o símbolo adquire um significado funcional e começa graficamente a refletir o conteúdo que a criança deve anotar”. (Luria, 1988, p. 181).
Neste processo, vão aprendendo muito sobre esta língua escrita:
• Que para ler é preciso alguns “objetos”: livros, jornais, papéis...
• Que normalmente viramos páginas da esquerda para a direita;
• Escrevemos recados para quem não está perto;
• Escrevemos para não esquecer de algo – registro;
• Aprendem a segurar e manusear estes objetos;
• Percebem que a língua escrita comunica;
• Que há símbolos de escrita em tudo ao seu redor;
• Diferencia números de letras;
Ainda é possível elencar muitos outros conhecimentos daqueles que ainda não sabem ler, todos importantes para dar continuidade a este aprendizado.
Quando ingressa na escola, a criança acaba exposta a outros procedimentos e sistematizações desta língua: aprende letras, números, nomes e como usar cada vez melhor estes materiais que antes povoavam somente suas brincadeiras e seu imaginário.
Na fase da Educação Infantil, no entanto, esta sistematização ainda pode e deve ocorrer de forma mais lúdica e a favor de jogos e brincadeiras. Afinal, há língua escrita nas regras dos jogos, no calendário, nas receitas de quitutes culinários, nos bilhetes das agendas, nos livros infantis, nos rótulos de seus materiais...
Ao fazer uma festa, escrevemos e recebemos convites; nos dias das mães e dos pais, cartões, nos brinquedos, vemos manuais de como montar e remontar.
É possível e desejável que o educador, consciente deste processo e dos objetivos de sua faixa etária, crie oportunidades variadas da aproximação de seus alunos com esta língua escrita viva.
Fazer uma brincadeira divertida e escrever um bilhete convidando outra turma para participar, dependendo da condução deste professor, pode ser uma rica experiência com esta língua escrita. Ver como o professor se comporta ao grafar o bilhete, enriquece este fazer futuro. Pensar o conteúdo e organizá-lo afim de ter uma boa compreensão do que se quer também.
Nosso dia a dia é cheio deste simples fazeres, portanto, não é preciso forçar nenhuma situação para ensinar esta língua. Afinal ela é o instrumento a favor da comunicação e não o contrário.
A escrita que primeiro ganha significado para estas crianças é a de seu próprio nome, afinal, é ela que os identifica como um ser único e os diferencia dos demais.
Onde está registrado meu nome, garante minha posse de algo.
Esta palavra simples, carrega o maior significado possível para cada um de nós: ser alguém, com características próprias neste grupo.
Assim, usar este nome como “objeto” de apoio para a alfabetização, não é um mero acaso.
Primeiro, os pequenos aprender a identificar este nome. Depois passam a diferenciá-lo dos demais de sua turma. Por último, querem grafá-los.
A primeira letra do nome próprio normalmente é a mais reconhecida e escrita pelas crianças antes das demais. Muitas chegam a estabelecer uma relação de identidade que, em geral, as faz chamá-la de “minha letra”. É sempre aquela que reconhecem mais depressa em diferentes textos, cartazes, alfabetos e outros. Fica muito interessante discutir estes nomes quando, em uma mesma sala há alunos cujos nomes comecem pela mesma letra. A discussão é sempre interessante e eles, desde cedo, aprendem a observar outras partes das palavras como recurso para resolver este pequeno e importante problema.
O modelo da escrita do nome em diferentes materiais informa à criança sobre quais são as letras e qual a quantidade necessária de letras para escrevê-lo, além de informar a posição e a ordem em que aparecem no seu nome. É um importante e significativo ponto de reflexão sobre este código.
Logo após, passa a se interessar pelos nomes das pessoas que lhe são caras: parentes e amigos. E mais conhecimento é posto em jogo e mais reflexão sobre esta língua faz-se possível.
Ao mesmo tempo, cabe ao professor planejar ações, que façam sentido a seus alunos, para colocar em cheque outras questões referentes a esta língua: diversificar os gêneros textuais e portadores de textos para que entrem em contato com esta língua da forma como ela se apresenta e que possam ser bons produtores destes textos no futuro; colocá-los a ler e a escrever, mesmo sem ainda não terem adquirido a base alfabética; usar textos de memória – como parlendas, travalínguas e adivinhas – para fazê-los pensar e conhecer suas estruturas e muitas outras possibilidades.
Assim, percebemos que “...a aprendizagem da leitura e da escrita não se dá espontaneamente; ao contrário, exige uma ação deliberada do professor e, portanto, uma qualificação de quem ensina. Exige planejamento e decisões a respeito do tipo, freqüência, diversidade, seqüência das atividades de aprendizagem. Mas essas decisões são tomadas em função do que se considera como papel do aluno e do professor nesse processo; por exemplo, as experiências que a criança teve ou não em relação à leitura e à escrita. Incluem, também, os critérios que definem o estar alfabetizado no contexto de uma cultura”. (Marília Claret Geraes Duran, “Alfabetização: Teoria e Prática”).
É o educador quem direciona e comanda estas ações. É de sua experiência, vivência, constantes observações e, principalmente de suas intervenções que estes alunos avançam em direção à base alfabética. Mesmo os professores dos alunos muito pequenos, com esta visão, escreverão em frente de seus alunos de outra forma, lerão com maior vigor e propriedade, pois estão conscientes que o aprendizado da língua escrita está em cada uma destas ações.
Denise Pinhas Pereira